BIOGRAFIA
CAMINHO PERCORRIDO

Nasci em São Paulo e passei minha infância e adolescência no Tatuapé, na época um bairro bastante provinciano. Passava minhas tardes jogando bola na rua, e adorava ir ao Pacaembu ou Morumbi ver o Corinthians jogar.

O gosto pelas viagens e aventuras, no entanto, se manifestou cedo, e aos 16 anos eu já tinha viajado por quase todo o Brasil, em excursões de turismo. Nessa época eu babava nas fotos coloridas das escaladas nos Andes do famoso Domingos Giobbi, publicadas pela extinta revista Manchete. Meu sonho era repetir suas façanhas, mas meu pai sempre me alertava que para ser alpinista era preciso de tempo e muito, muito dinheiro, para bancar essas aventuras. Enfim, era coisa de rico, condição que estávamos longe de ter.

Porém, pouco antes de me formar pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, em 1980 descobri o Centro Excursionista Universitário (CEU), na USP. Era um clube de estudantes, bem diferente do Clube Alpino Paulista (CAP), então comandado pelo Giobbi, e frequentado pelos seus amigos endinheirados, descendentes de europeus.

Foi através do CEU, clube onde ainda hoje se encontraram pessoas que curtem viagens de aventura, que comecei a escalar montanhas.

Os primeiros treinos foram no pequeno campo-escola do Pico do Jaraguá, e foi amor à primeira vista. Ao sentir a indescritível emoção de me ver agarrado como uma lagartixa nas pedras verticais a muitos metros de altura, ali mesmo decidi que iria viver para o alpinismo, sabia-se lá como. Fiz as primeiras escaladas de “verdade” na cidade do Rio de Janeiro e em Itatiaia, para onde viajava com frequência.

Em 1982 fui convidado por amigos do CEU a participar de uma expedição na Cordilheira Branca, nos Andes Peruanos, justamente onde o Domingos Giobbi fez algumas de suas mais importantes escaladas. E assim, com apenas 22 anos, humildemente fui ao CAP pegar dicas e ouvir conselhos do Giobbi, que me recebeu super bem. Com botas duplas de couro, emprestadas, roupas e equipamentos rudimentares, e um pouco de dinheiro dado pelo meu pai, (que, para minha surpresa, se tornou um incansável apoiador), fiz minha primeira expedição à “alta montanha”.

A alegria de percorrer vales remotos para se chegar numa grande montanha, colocar um crampon e subir uma geleira, enfrentar um paredão de gelo respirando o ar rarefeito, acampar a 6.000 m de altitude, e o medo de escapar da morte por um triz, 3 vezes num mesmo dia, foram experiências que me marcariam pelo resto da vida, e que me deram a certeza que eu estava no caminho certo, apesar de todos meus amigos e parentes acharem que eu era maluco.

Estávamos nos primórdios do alpinismo no Brasil, uma época, sem dúvida, mais romântica e ingênua do esporte. Os lugares de escalada eram poucos e haviam poucas informações. Os raros escaladores se concentravam no Rio, SP e Curitiba e não se ouvia falar de aventureiros de outros estados. Não havia lojas, sites ou o Discovery Channel para nos “alimentar” e alavancar o esporte. Escalava-se com tênis kichute, com os cravos de borracha da sola totalmente raspados; a maioria só tinha uma meia dúzia de mosquetões, as mochilas eram artesanais, e ter um fogareiro importado então, era um luxo para pouquíssimos.

E fazer rapel era uma espécie de “preço a se pagar” por ter subido uma montanha. Não passava na cabeça de nenhum alpinista viver organizando rapéis em viadutos.

Na volta do Peru, num lance de sorte, ganhamos uma passagem ida e volta para São Francisco, na Califórnia. Assim, no ano seguinte lá estava eu escalando em Yosemite, a meca dos escaladores de rocha.

Na volta, tomei uma decisão que (sem saber exatamente a dimensão) mudaria minha vida para sempre. Ao invés de tentar um emprego e fazer carreira numa empresa, como todos os meus amigos, fui para o Aconcágua (ainda com roupas e equipamentos rudimentares) na Argentina. Na sequência me mudei para São Francisco, onde fiquei por 3 anos trabalhando com, digamos, logística de distribuição de gêneros alimentícios, vulgarmente chamado de “entregador de pizzas”.


Descida “solitária” do rio Noatak

Topo do Monte McKinley - Alaska

Neste período explorei 14 dos principais Parques Nacionais do oeste americano, escalei na remota Wind River Range, estive no Havai e fui para o Alaska, onde, junto com seu amigo Beto Borges, me tornei o segundo brasileiro a escalar o Monte McKinley, em junho de 1986.

De volta ao Brasil em 1987, no final do ano participei de minha primeira expedição no Himalaia – na época um lugar tão remoto quanto ir a Marte, pelo menos para um brasileiro. Integrando uma equipe polonesa tentei a primeira ascensão de inverno do Monte Makalu (8.470 m), a quinta montanha mais alta do mundo.

Seis meses depois organizei uma exposição de fotos no Centro Cultural São Paulo, decorada com vitrines onde mostrava os equipamentos utilizados na expedição: as botas duplas, os crampons, as piquetas, as roupas, fogareiros etc. O sucesso foi estrondoso. Mais de mil pessoas foram ao lançamento ver aquelas imagens de um mundo que ninguém conhecia, e lotou o gigantesco auditório onde fiz uma projeção de “slides”.

Sem um patrocinador que me pagasse um salário, subsistia escrevendo artigos para jornais e revistas, guiando caminhadas e dando aulas de alpinismo. Foi nessa época que, com mais dois amigos, abri uma das primeiras agencias de ecoturismo no Brasil.

No verão de 1989-90 fui para minha primeira expedição na Antártica, como alpinista de apoio ao Programa Antartico Brasileiro. Passei dois meses acampado na desolada Ilha Seymour (ou Marambio), no Mar de Weddell, apoiando uma equipe de 3 geólogos da Petrobras.


Calota polar da Ilha Rei Jorge, na Antartica

A Caminho do Polo Norte Geográfico

Em fevereiro de 1991 subi novamente o Aconcágua - dessa vez pernoitei no topo, a quase 7.000 m de altitude - como treino para o que viria a seguir: liderar a primeira equipe brasileira a tentar subir o Monte Everest. Fomos pela face norte, no Tibet, com uma autorização que eu tinha conseguido em meu nome, dois anos antes. Ir para a maior montanha do planeta era algo tão absurdo, tão fora de propósito para um brasileiro, que ninguém sequer imaginava em tentar. Assim, embora não tenhamos chegado no topo, essa experiência quebrou paradigmas, abriu meus horizontes e, acredito, as “portas” do Himalaia para toda uma geração de alpinistas brasileiros que viriam nos anos subsequentes.

Achei importante narrar essa experiência em livro. Dezoito meses após a viagem publiquei o “Everest: viagem à montanha abençoada”, não somente para divulgar meu trabalho e toda a complexa logística de uma expedição ao Everest, (numa época, pré-expedições comerciais), mas para inspirar outros aventureiros a também escrever sobre suas experiências. Foi outra maneira que encontrei para tentar fomentar esse mercado. Uma outra, consequência daquela, foi começar a fazer palestras para executivos.

No verão 1992-93 voltei à Antártica. Dessa vez passei boa parte do verão na estação brasileira Comandante Ferraz, na Ilha Rei Jorge, apoiando os trabalhos de uma equipe glaciólogos da UFRGS.

Na volta decidi explorar o outro lado do globo. Queria enfrentar outro tipo de terreno, novos perigos (incluindo animais como ursos polares) e lidar com novos equipamentos, como esquis e trenós. Mais que isso, queria experimentar as sensações e dificuldades vividas pelos exploradores do século 19. E da maneira mais simples possível: a pé, sozinho, puxando um trenozinho com tudo que eu precisasse, e sem nenhuma ajuda externa.

Assim, passei os dois anos seguintes me preparando para dar início ao que viria a ser o Projeto Polo Norte. No final de 1995 passei 10 dias com os esquimós do extremo norte do Canadá. Poucos meses depois perambulei 140 km pela calota polar do Oceano Ártico, puxando um trenó, em direção ao Polo Norte Magnético, acompanhado apenas por um cão esquimó, que estava ali para me proteger dos ursos.

Realizar uma expedição solitária – ainda mais com um cão - onde eu tinha que lidar com o isolamento, com os inúmeros perigos, desempenhar bem múltiplas funções, tomar todas as decisões e assumir todos os riscos, foi a realização de outro sonho, e o amadurecimento como atleta, como planejador e, principalmente, como ser e criatura.


Volta da Ilha Grande - RJ

P.N. Torres del Paine – Chile

Voltei do Ártico com o trenó repleto de aprendizados, compartilhados no livro “Sozinho no Polo Norte”. Mas o projeto não tinha terminado.

No início de 1999, integrando uma equipe canadense, esquiei 100 km pela inóspita Cordilheira Torngats – extremo norte do Canadá - antes de embarcar para a Sibéria, de onde parti para caminhar o último grau de latitude da Terra até o Polo Norte Geográfico, onde cheguei em 28 de abril.

Apenas dois meses depois, lá estava eu integrando uma equipe holandesa que atravessaria a pé o tórrido Deserto de Gibson, no coração da Austrália.

Em 2000, quando fiz 40 anos, mudei novamente os rumos da minha vida. Por um lado estava cansado de depender de patrocínio – sempre difíceis de se obter - para realizar meus grandes projetos e me manter. Por outro, comecei a ser contratado por grandes empresas para ir “além” das palestras. Eles queriam levar seus executivos para a natureza para realmente “vivenciar” – na prática - planejamento, superação, liderança, entre outros conceitos organizacionais. Era o início do outdoor training no Brasil. Assim, como tinha acontecido com o ecoturismo, na alta montanha e no Ártico, mais uma vez me vi “desbravando” um caminho novo. Sem falar que entrou na minha rotina curtir fraldas, chupetas, berços, e as conquistas diárias da minha filha Julia, nascida em 2003.

Assim, de 2000 em diante tive o privilégio de usar de toda minha experiência e aprendizados para trabalhar com “gente”, e “desenvolver pessoas”. Na prática, tornei-me um “aventureiro-educador,. um período muito rico de auto conhecimento e novos aprendizados.

Também pude fazer várias aventuras com recursos próprios, para lugares belíssimos, sem a necessidade de ter que “gerar mídia” ou obter “retornos”, que não o de satisfação pessoal. Pude deixar a montanha um pouco de lado, e “descobrir” o mar, através de pequenas viagens em caiaques oceânicos.

Em 2012 tomei coragem e realizei um sonho antigo: explorar a remota cordilheira Brooks Range, no norte do Alaska. Nessa expedição desci sozinho 300 km numa canoa o Rio Noatak, considerado o mais selvagem do Alaska. Caminhei 60 km e subi uma montanha que nem nome tem. Outro sonho foi levar meus cadernos, aquarelas e pincéis para retratar algumas paisagens, com toda a calma do mundo. O que é bem diferente de dar um “click”, tirar uma foto e seguir adiante.

Nessa expedição, durante 20 dias não vi um ser humano sequer, mas tive o privilégio de ver, em seu habitat natural, vários caribous (espécie de rena), um urso (que fugiu de mim), um búfalo selvagem (que me deu o maior susto da viagem), e um lobo solitário que veio “visitar” meu acampamento.

Foram vários dias de silêncio, de paz e tranquilidade, desplugado de tudo e de todos, onde pude novamente resgatar uma paz interior, difícil de se obter na cidade grande.



Nesses quase 30 anos de viagens e expedições pude escrever vários artigos para os principais jornais, revistas, sites e portais do país, e publicar dois livros. Conheci pessoas e culturas incríveis, lugares inimagináveis, paisagens belíssimas e vivi intensamente. Sempre procurando inspirar pessoas a realizar seus sonhos e projetos, com imenso prazer no meu trabalho.

Atualmente, entre uma viagem e outra, venho desenvolvendo novas palestras e atuando como educador e como coach na Avanti Consultores, empresa que abri em 2000 para o desenvolvimento de executivos, trainnes e formandos.

Sem deixar, claro, de continuar a estudar, treinar, pedalar, remar, desenhar, pintar, e pesquisar lugares incríveis para minhas próximas expedições – fonte de minhas inspirações e aprendizados.