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Brooks Range/Rio Noatak - Alaska Parte I

Diário de Viagem – Parte I


Início

Assim que desembarquei toda a carga numa das pontas do lago, o piloto e seu ajudante se despediram. Entraram de volta na minúscula aeronave e se afastaram, deslizando mansamente para a outra extremidade do lago, até fazerem uma curva e sumirem da minha visão.

Apesar de entretido transportando minha carga para longe da margem, eu ainda a escutava.

Não demorou e logo o hidroavião, como uma lancha, veio surfando ligeiro e barulhento pela água escura. O lago já estava acabando quando ele, finalmente, decolou. Parei de fazer o que estava fazendo e fiquei observando o velho avião, até ele sumir por entre as montanhas e as nuvens. De repente me vi envolvido por um silêncio profundo e sereno, que me fez relaxar.

Com a partida do avião eu estava me desconectando do último elo de “civilização”. Largado numa das regiões mais remotas e inóspitas da América do Norte, eu sabia que, provavelmente, não veria outro ser humano nas próximas semanas e, portanto, dali em diante teria que me virar absolutamente sozinho.

Eu estava numa extensa planície de mata baixa, no fundo de um vale, aos pés de uma barreira de montanhas arredondadas e parcialmente cobertas de vegetação, que me lembraram a Serra Fina. Apesar de ser veterano de várias expedições, aquela era a primeira vez que eu visitava a tundra do Ártico.

Na minha frente, espalhada pelo chão, mais de 100 kg carga. A comida estava acondicionada em três barris de ferro à prova de ursos. As roupas e uma infinidade de equipamentos distribuídos em mochilas e sacos estanques. Fora inúmeros itens soltos, como meu tripé, galões de benzina, os remos desmontados e a canoa inflável, ainda totalmente dobrada. Ali na grama úmida, a poucos metros do lago, estava tudo que eu precisava para sobreviver e me deslocar durante um mês, sem precisar de ajuda.

Eram 14h30 do dia 1 de agosto, meados do verão naquelas paragens. Num céu bastante carregado de nuvens escuras, a temperatura girava por volta dos 10 graus positivos, e uma leve garoa umedecia o ambiente. Acho que não tinha se passado nem 5 minutos quando, de repente, fui descoberto pelos menores e mais famosos habitantes daquele lugar: os mosquitos! Foi uma festa! Dezenas, depois centenas deles vieram me dar os “boas vindas”, todos “felizes” tentando entrar na minha boca, nariz, ouvidos, cabelo, fazendo aquele zumzum característico.

 Minha viagem à Brooks Range havia começado poucos dias antes, na tranquila cidade de Benícia, na California, na residência de um casal de amigos brasileiros. Ali peguei vários equipamentos que havia encomendado pela internet, e comprei parte da comida. Dali voei para Anchorage, a maior cidade do Alaska, onde adquiri minha bota de cano alto de neoprene, aluguei um telefone satelital e comprei o restante da comida.

Como numa canoa não existe muita limitação de peso, e eu estava de “férias”, resolvi caprichar: entre várias delícias, inclui farinha e ingredientes para fazer pão e mini pizzas, algumas maças e cebolas in natura e, claro, uma garrafa de vinho tinto californiano, que ninguém é de ferro.

Para ir à Fairbanks, última cidade do trajeto, 580 km ao norte, preferi ir de carro. Lá comprei mais alguns itens de última hora, empacotei tudo e embarquei num minúsculo avião para Bettles, uma vila bem mais ao norte, onde vivem (no verão) umas 60 pessoas.

Foram poucas horas ali. O suficiente para ouvir de um guarda-parque algumas explanações sobre a região, como lidar e eventualmente enfrentar ursos (sugiro a todos aprender), e pegar os barris para acondicionar a comida.  Depois peguei minha canoa alugada, a benzina e dois sprays de gás pimenta, que seriam minha “proteção” contra eventuais ataques de ursos.

Ao contrário de quando fui sozinho ao Polo Norte, desta vez não levaria arma alguma. Para o pessoal local, não levar uma espingarda numa região onde vivem os ursos é quase uma “heresia”, uma “loucura”. Concordei mas, para aumentar a “emoção”, preferi arriscar.

Com tudo pronto, embarquei no hidroavião para um voo belíssimo de 01h30 até as margens do Lago Twelve Miles.

Portage

Com os mosquitos me “pressionando”, eu não tinha tempo a perder. Precisava levar tudo até às margens do lendário rio Noatak, que seria a estrada para explorar a região. Antes de partir, o piloto apontou numa direção no horizonte e disse apenas que o rio ficava a uns 500 metros “naquele” rumo.....e avisou: não dá para acampar antes do rio pois o terreno é úmido, irregular e muito fofo.

Foi só começar o portage para ver que os 500 metros de transformariam em vários quilômetros – com tantas idas e vindas!

Os barris (do tamanho daqueles de chopp) não tinham alças e estavam pesadíssimos. A canoa, sozinha, pesava 40 kg. E o terreno era exatamente como o piloto descreveu, exigindo vários desvios, sempre com o cuidado, a cada passo, de não “virar” ou atolar os pés na água, ou enroscar na mata.

Só para ter uma ideia da “roubada”, depois de 06 horas de esforços, sem parar para comer ou descansar, eu só tinha avançado exasperantes 250 metros.

Eram 20h30 quando, exausto, decidi parar e montar acampamento. Para minha sorte encontrei um lugarzinho plano e seco na grama, ideal para montar a barraca.

Preparar e simplesmente comer o jantar foi outro desafio. Sem vento, o cheiro de comida misturado com meu suor atraiu mais mosquitos. E estes, famintos, desta vez trouxeram todos seus amigos e parentes, decididos a me deixarem louco. Eles não chegavam a picar ou morder, e eram inofensivos e fáceis de matar, mas eram tantos que nem valia à pena tentar. Só resgatei minha paz quando coloquei uma tela mosquiteira na cabeça,  pois o resto do meu corpo estava protegido por roupas e luvas. O problema era como conseguir enfiar a comida na boca com aquela tela na cabeça. E não engolir os bichinhos que caiam no chá.

Era quase meia noite quando contei 0,3 carneirinhos e apaguei dentro do saco de dormir. Àquela altura, os dias ainda tinham 24 horas de luz. Mais alguns dias e as madrugadas ficariam cada vez mais escuras.

O Noatak, afinal

Na manhã seguinte, fui fazer o que mais me interessava: encontrar o rio, 200 metros adiante!  Dezenove anos depois de ouvir falar do Noatak pela primeira vez, motivo de tantos sonhos, planos e sacrifícios, finalmente eu o vi na frente dos meus olhos.

Foi impossível não me emocionar e ficar um bom tempo o admirando, vendo suas águas cinza esverdeadas passarem tranquilas rentes aos meus pés.  Do outro lado do rio, montanhas cobertas de vegetação subiam vertiginosas, até seus cumes sumirem por entre as nuvens. Olhando à esquerda, a quilômetros de distancia, o Monte Igikpak (2.593 metros), o pico mais alto daquela região, e onde fica a nascente do Noatak. À direita o vale seguia mais aberto e o rio sumia da visão.

Passei o restante da manhã levando toda a carga para a beirada do rio. Do ponto onde eu estava, o rio se bifurcava para contornar um grande banco de areia de batida, onde decidi montar meu segundo acampamento.

Encaixei a canoa num recorte da margem do rio e a carreguei com metade da carga. Havia chegado a tão sonhada hora de “entrar” no Noatak. Minha canoa inflável era uma SOAR Pro Pioneer, de 14 pés, feita do mesmo material dos botes da rafting. Embora considerada muito estável, era a primeira vez que manobrava uma delas. Assim, com o maior cuidado do mundo para não errar a manobra, ensaiando com os olhos cada movimento, com o coração acelerado, desamarrei a corda da proa, dei um empurrão na mata com o remo e, finalmente, depois de tantos anos sonhando, entrei naquele rio! HURRA!! Foi mais fácil do que eu esperava, mas isso não diminuiu a emoção.

Entrei na correnteza, fiz a curva à esquerda ao final do banco de areia, e a direcionei para uma praiazinha. Desembarquei e a puxei pelo raso contra a correnteza até o ponto onde montaria a barraca. Repeti a operação com o restante da carga e, no final da tarde, já estava instalado.

Logo começou uma leve garoa. As vantagens de acampar na beira do rio logo se mostraram evidentes. Os mosquitos praticamente sumiram e a água estava quase ao alcance das mãos. Sem falar que a canoa, ao meu lado, servia como depósito, evitando ter que desembarcar toda a carga.

Por volta das 18h30, quando a garoa deu uma trégua, tomei meu primeiro banho no rio.

A garoa voltou na hora do jantar, mas nada que me impedisse de cozinhar ao ar livre, aliás, como faria dali para a frente em todas as refeições durante a expedição.

De volta à barraca depois de comer, tentei atualizar meu diário mas...... não consegui. Estava tão cansado que adormeci com a caneta na mão.

Adaptação

Choveu a noite toda. Por volta das 8 horas da manhã, num curto intervalo, consegui fazer um belo café da manhã, com direito a um pão com nozes quentinho, feito na hora. Assim que terminei de comer voltou a garoar.

Com dores nas costas da mulagem, decidi então que seria um dia de descanso e adaptação. Mais que meus equipamentos, precisava organizar meus pensamentos, me “localizar” no tempo e no espaço e me adaptar ao novo lugar e rotina. Procurei ouvir minha respiração, rever a postura corporal, e exercitar meus 5 sentidos, olhando com calma os detalhes à minha volta, sentindo os aromas do lugar, e apurando os ouvidos. O único ruído era o da correnteza tranquila do rio.

Depois me pus a trabalhar, organizando o acampamento, minha carga e a canoa. Olhando meus mapas, vi que o pico bem na minha frente era o Oyukak (2.228 m). O Igikpak estava 13 km rio acima. 48 horas já tinham se passado e eu ainda não conseguia ver seu cume, totalmente encoberto por nuvens espessas.

À tarde até saiu um solzinho, mas nenhum sinal de vida. Com meus binóculos, esquadrinhei o céu e as encostas ao meu redor, mas não vi um ser vivo. Nem os mosquitos apareceram! Jantei rodeado de silêncio e paz.

Antes de dormir, preparei uma pequena mochila para o dia seguinte. A intenção era atravessar para a outra margem do rio, e caminhar o máximo possível rio acima em direção à nascente do Noatak, no coração da Brooks Range.

Rio Acima

Na manhã seguinte, ao invés de um galo cantando, acordei com lobos uivando ao longe. Não dava para vê-los mas com certeza eram três, provavelmente filhotes. Mal terminei o café, às 06h45 estava pronto para sair quando....caiu o maior toró. As montanhas sumiram atrás de nuvens escuras, e o termômetro desceu a zero. O que fazer?

Ainda sem conhecer as dificuldades da tundra, não tinha a menor ideia de quanto tempo levaria para caminhar alguns quilômetros. Fora que passar algumas horas longe do acampamento naquele clima me deixava muito preocupado. Com a chuva, o nível do rio poderia subir (quanto??) e inundar meu acampamento, apenas alguns centímetros acima da linha d´água.  Sem falar em eventuais ursos ou lobos atrás da minha comida, que poderiam destruir minha barraca.....Como saber? Era tudo novo para mim.

Só consegui sair às 11h15, quando a chuva diminuiu. Carregava mais de 30 itens na mochila, preparado para inúmeras possibilidades, inclusive a de dar de cara com um urso.  

Entrei na canoa vazia e remei o mais forte que pude, fazendo a travessia em diagonal até a outra margem do rio. Ser pego de lado pela correnteza foi uma sensação horrível e meu coração quase saiu pela boca. Se eu capotasse, quem iria me ajudar?

Terminada a travessia, prendi a canoa no cascalho, abandonei minhas botas de borracha e pus as de trekking. Encontrei uma rampa e entrei na mata fechada, um metro acima do leito do rio. Logo encontrei sinais de uma trilha. Com isso pude acelerar meu passo e ganhar confiança. Depois de um tempo a trilha me levou de volta ao espaço aberto da praia de cascalho.

E assim, ora caminhando pela mata - às vezes aberta, às vezes fechada - ora pelo leito de cascalho, tentei acompanhar as curvas do rio, seguindo rumo à nascente. E a tundra, generosa, aos poucos foi me mostrando seus encantos.

Eram tantas as “novidades” e os detalhes, que diminui o passo e passei a observar mais. Ao longe, quanto mais eu avançava, mais montanhas eu via, formando uma paisagem de tirar o fôlego. Aos meus pés, o terreno e o padrão da vegetação mudavam com impressionante rapidez. Aqui e ali, diferentes espécies de flores, muitas agrupadas em arranjos, misturadas com uma folhagem colorida e frágil, formavam um cenário único, onde a mão do artista não se esqueceu de nenhum detalhe. 

Outra coisa que muito me interessava era desenvolver a “arte” de caminhar pela tundra. Em vários pontos é como caminhar por cima de uma gigantesca esponja, afundando a bota inteira a cada passo. Às vezes com várias poças d´água entre os tufos de mato. Era preciso “ler” as sutilezas do terreno para distinguir as partes secas das úmidas e encharcadas, e escolher a melhor rota.  Foi divertido desafiar minha habilidade e equilíbrio para conseguir pisar nos tufos maiores, ou “empurrar” o mato com os pés para formar um micro colchão a cada passada, e avançar rápido mesmo pelas áreas mais alagadas sem molhar os pés.

O céu continuava carrancudo, úmido e instável. Nuvens baixas iam e vinham ao sabor do vento, garoava em alguns pontos, mas havia um solzinho em outros.

Caminhei até às margens do riacho Angayu Creek, que descia das montanhas à minha direita, quando decidi parar. O Igikpak estava quase ao alcance das mãos, mas para chegar à nascente do Noatak teria que contorná-lo. Calculei que, no ritmo que eu estava, seriam mais umas 12 horas até lá. De ida.  

Entrei no leito de cascalho e me aproximei de um dos canais do Noatak para fazer um lanche e curtir o momento. A paz do lugar era algo realmente tocante. Deitei no chão e passei a divagar. Que lugar!  Tratei de relaxar e me envolver pela atmosfera, para captar a energia daquele lugar tão inóspito.

Conversa com Lobos

Sem pressa de ir à parte alguma, pelo horário achei melhor voltar ao acampamento. Mas voltaria por um caminho diferente.

Ao invés de voltar rente ao rio, decidi subir as montanhas, agora à minha esquerda, e caminhar de volta seguindo uma curva de nível bem no alto, entre o rio e os cumes, de onde descortinei uma belíssima visão de todo o trecho superior do Noatak.

Com um final de tarde agora cada vez mais bonito, eu caminhava tranquilo. Mas, depois de um tempo achava que estava na hora de avistar minha barraca. Eu tinha uma visão que me permitia ver quilômetros para todos os lados, então não entendia porque não conseguia vê-la. Fiquei intrigado. Continuei por quase uma hora e nada de enxergar a danada. O rio era repleto de curvas fechadas e bancos de areia, semelhantes àquele onde montei meu campo-base. De longe e na sombra, pareciam todos iguais.

Cada vez mais cansado e com o sol baixando, minha preocupação foi aumentando. Será que passei pelo acampamento e não percebi? Seria uma situação gravíssima. E eu não queria apelar para o GPS que, aliás, estava quase sem bateria

Decidi descer a encosta e me aproximar do rio, quando, por um momento me enfiei numa mata fechada e muito inclinada. Depois de ficar “perdido” durante um tempo, acabei reencontrando o caminho que havia feito pela manhã e logo avistei a barraca ao longe. Ufa! Uma alegria imensa  me invadiu. Foi quando comecei a ouvir os lobinhos uivando ao longe. Radiante, comecei a uivar de volta. Eles responderam uivando com mais intensidade. E eu idem. Em 10 minutos estava na canoa, e em 20 minutos estava no acampamento. Cansado mas feliz. E aliviado. Depois de tantos anos, tinha me aproximado do coração da Brooks Range. Agora eu estava pronto para começar a descer o Noatak.

Para terminar a noite, fui contemplado com um belíssimo céu azul e um pôr do sol refletido nas águas do rio. Que mais eu queria!?!?

BROOKS RANGE/RIO NOATAK - ALASKA – Parte 2

 

Começa a descida do Noatak

Acordei às 06h da manhã, mas demorei tanto para tomar café, fechar o acampamento e carregar a canoa que só consegui sair às 10h10.

O dia estava nublado, sem vento, mas parecia mais ensolarado rio abaixo, a oeste. A temperatura girava em torno de uns 15 graus.

O objetivo nesse dia, mais que fazer distancia, seria me ambientar à canoa, à posição de remada, os efeitos da distribuição da carga, apurar as técnicas para desviar de obstáculos e, principalmente, aprender a “ler” o rio. Propus a mim mesmo tentar fazer um  expediente de 06h, para ter uma ideia básica de quanto isso significaria em distancia....e esforço.

 A canoa estava abarrotada de carga. Acostumado com caiaques oceânicos, logo percebi que a canoa inflável demora uma “eternidade” para responder aos comandos. Mas o rio estava manso e agradável.

A água, de um verde intenso, era límpida e transparente, o que me permitia ver o fundo de cascalho alaranjado. Para mim era uma verdadeira higiene mental ver as pedrinhas passando suavemente sob o casco da canoa a cada remada. Em vários pontos, o rio era tão raso que o fundo da embarcação quase raspava nas pedras. Remando num ritmo cadenciado, rapidamente fui vencendo uma curva atrás de outra, algumas em ferradura, me dando a impressão que eu estava remando de volta, rio acima.

O cenário era magnífico, rodeado por uma linha contínua de montanhas, a perder de vista, em ambos os lados do rio. A cada curva, um cenário diferente, ou um ângulo diferente de uma mesma montanha. A cada curva também surgiam praiazinhas de areia e cascalho, uma mais linda que a outra, protegidas por uma vegetação variada, pontilhada de flores e arbustos.

De repente vi um esquilo todo serelepe, subindo da praia para o pequeno barranco coberto de vegetação, que forma a margem do rio. Não demorou e avistei dois imensos caribous atravessando o rio, uns 300 metros na minha frente. Semelhantes a uma rena, mas com imensas galhadas que atingem mais de um metro de altura, são os animais mais graciosos da Brooks Range, mas muito desconfiados e ariscos. É difícil se aproximar deles. Calcula-se de 500 mil a 800 mil caribous cruzando o Noatak nessa época, todos os anos, e era o que eu mais queria ver nessa viagem.

Depois de 01h10 de remada procurei uma praia ampla e distante da vegetação para meu primeiro lanche. Não queria ser surpreendido por algum animal neste primeiro dia. Comi sentado no chão, de frente para canoa e com o spray para urso sempre à mão.

Depois de comer, peguei firme no remo e não parei mais. O silêncio e a solitude aos poucos diminuíram minha ansiedade, e eu comecei a me sentir mais em paz, e mais integrado ao ambiente.

Minha única preocupação passou a ser encontrar a melhor correnteza na mansidão do rio. O que não era difícil. Bastava tentar vislumbrar, na superfície lisa, onde fazia marolas. O problema era que isso quase sempre acontecia do lado de fora das curvas. E para chegar do lado de fora delas eu tinha que remar 50, 80, 100 metros, ou mais. Como as curvas se sucediam, na prática eu tinha que fazer um cansativo zigue zague dentro do leito do rio. Mesmo assim, fiquei impressionado com a distancia percorrida.

Conforme ia descendo o rio, o céu foi ficando mais azul, mas o vento frontal foi aumentando. No começo estava gostoso e refrescante, mas não demorou a incomodar. Aos poucos comecei a cansar e a perder rendimento.

Duas gaivotas surgiram em cima de mim e me seguiram atentas, por um bom tempo. Quanto mais o sol brilhava mais a força do vento aumentava, a ponto de eu quase não conseguir sair do lugar.  Eram apenas 15h quando achei uma praia na margem direita do rio, relativamente abrigada (eu achava) do vento. Decidi parar.

Feliz com a remada, fui montar a barraca. Foi quando o vento aumentou a ponto de quase arrancá-la das minhas mãos.  Sem ajuda, foi uma luta conseguir segurá-la e montá-la com as mãos, enquanto os pés manobravam os barris de comida para servirem de ancoragem. Fora a areia fina que me cobriu inteiro, entrando em todos os poros.

Pus para estrear meu painel solar dobrável. Não sei porque, as 3 baterias da câmera Go Pro, novas e recém carregadas em Anchorage, estavam totalmente descarregadas.

 Brincando com o perigo

No dia seguinte acordei novamente às 06h. Desta vez levei 03h25 para estar pronto para mais um dia de remada.

Quando estava carregando a canoa tomei um baita susto. Ouvi um rugido forte e bem próximo. Pensei que era um urso dentro da mata, ao meu lado. Agarrei o spray e fiquei na espera. Ainda tinha coisas espalhadas pelo acampamento, mas preferi ficar ao lado da canoa. Outro rugido. Olhei em volta e não vi nada se mexendo. Outro rugido. Parecia que vinha do outro lado do rio, mas podia estar do lado de cá!! De repente, vi na margem oposta um animal marrom enorme saindo de trás da mata, e se aproximando da beirada do rio. Para minha sorte, era um Musk Ox (espécie de búfalo local) faminto, devorando um arbusto.  Aliviado, desta vez consegui fotografar.

Assim que entrei na água vi que o tempo rio abaixo estava pior. Dava para ver cortinas brancas de chuva espalhadas no horizonte.

O rio foi ficando cada vez mais largo. Passava de 100 metros de largura em vários lugares. Aos poucos fui deixando para trás várias montanhas, algumas do porte do Pico do Jaraguá, em São Paulo. A base de algumas chega na beira do rio. Outras ficam bem mais recuadas.

Nas águas rasas, quanto mais largo é o rio, mais lento ele fica, exigindo mais força na remada. Algumas vezes ele bifurca, e é preciso ficar atento para seguir pelo canal correto. Se errar, a canoa encalha, como aconteceu algumas vezes. Mas era só descer e ficar de pé na água, que a canoa, com 80 quilos a menos, desencalhava sozinha. Com ela boiando ficava fácil trazê-la pela corda para uma parte mais funda com alguma correnteza.

Ao meio dia começou a garoar. Logo a garoa engrossou, até virar uma chuva forte. E não parou mais! No começo meu anorak “segurou” a chuva, mas aos poucos senti até a calça e a cueca umedecendo. Eu tinha me dado novamente a meta de remar 6 horas, por isso, apesar do aguaceiro, decidi continuar. Afinal eu estava no Alaska. Se eu parasse cada vez que começasse a chover, não acabaria nunca, pensei.

Os problemas rapidamente começaram a aparecer. Primeiro tive que tirar meus óculos, que não dispõe de “limpador de para-brisas”. O que comprometeu minha visão. Depois tive que remar praticamente sem comer, pois quando tentei parar para um lanche, tremi descontroladamente. Mas o pior foi lutar contra o desânimo. Sem ninguém para conversar e te incentivar (mesmo que pela simples presença), você começa a pensar no que está fazendo ali.

Remando no temporal, não demorou para ficar encharcado por baixo das roupas de nylon. O desconforto era enorme. Mesmo assim insisti em só parar às 15h30, cumprindo a meta do dia. Quando deu 15h20, quando a chuva deu uma diminuída, percebi que estava muito exausto, e na eminência de pegar uma hipotermia. Eu precisava urgentemente encontrar uma praia para acampar. Era evidente que eu estava forçando a barra. Um erro primário na natureza hostil do Alaska. Ainda mais sozinho.

Por sorte avistei um pequeno platô de grama, ao lado de um banco de cascalho e areia, à minha esquerda. A distancia desde o leito do rio era grande – mais de 60 metros, mas não tinha escolha. Tiritando de frio e quase sem forças puxei a canoa para o cascalho, e  levei os barris, sacos e mochilas até o platô. Para meu horror, vi que parte das roupas no nos sacos estanques estavam molhadas! Tinha entrado água nos sacos que deveriam ser à prova d´água! Como pode?!? Assim que comecei a montar a barraca, a chuva caiu mais forte que nunca. Sem óculos e tremendo, eu não conseguia enfiar as varetas nas mangas da barraca, o que só aumentou minha irritação. Quando finalmente consegui montá-la, pus às pressas apenas os itens mais importantes dentro dela, tirei minhas roupas encharcadas, entrei na barraca, passei uma toalha pelo corpo e me enfiei pelado no saco de dormir. Ufa! Que alívio. Eu precisava me esquentar urgentemente. Meu travesseiro e meu casaco mais grosso estavam molhados mas o saco de dormir estava intacto.

Meu estômago estava roncando de fome mas a chuva impedia qualquer refeição ao ar livre. O jeito era ficar quieto e esperar. Mais tarde, quem sabe, faria um lanche, cuja caixa ficara....na canoa.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e quente, o que me permitiu secar as roupas e equipamentos, enquanto degustava lentamente meu café da manhã. Só sai ao meio dia.

Depois da segunda curva no rio avistei um enorme caribou, que pude fotografar com tranquilidade. O dia estava perfeito, com a correnteza bastante amigável. Passei pelos afluentes Komakak e Ipnelivik, de águas cristalinas, que desembocam no Noatak, formando deliciosas praias de cascalho.

 Seduzido por uma montanha

Montanhas e mais montanhas  para onde quer que eu olhasse  Tinha feito apenas metade do expediente quando uma delas “olhou” para mim e me “chamou”. Sim, ela me “chamou”. Tinha um topo agudo, se destacando das demais, e uma graciosa e convidativa aresta em S, que levava ao cume. Não poderia visitar a cordilheira Brooks sem subir uma de suas montanhas. A maioria tem o “padrão” Pedra da Mina, Agulhas Negras etc, isto é, acessíveis por “escalaminhadas”. Subir uma delas seria, literalmente, o ponto “alto” da viagem.

Montei acampamento numa praiazinha linda. Só depois percebi que estava repleta de pegadas de lobos, caribous e, ops, ursos!! Fazer o que? Pelo menos tinha uma excelente vista para o pico (1.883 m)....que nem nome tem. Aproveitei a tarde livre para lavar roupas e recarregar as baterias das câmeras.

O legal de subir montanhas ali, é que eu não havia pesquisado nenhuma delas. Podia escolher qualquer uma aleatoriamente que não saberia qual a melhor rota a seguir, grau de dificuldade ou quanto tempo leva. Contaria apenas com meus 30 anos de montanhismo para farejar o melhor caminho. Era uma maneira de tentar experimentar a inigualável sensação dos pioneiros conquistadores.

Assim, na manhã seguinte, 08/agosto, calculando que seriam uns 15-20 km ida e volta (sem trilhas), saí para caminhar às 09h45, com o “feeling” que retornaria para o jantar. O dia estava nublado e abafado. Com mais de 50 itens na minha pequena mochila, eu sentia a alegria contagiante de um adolescente indo ao primeiro encontro com uma garota, ansioso com o que poderia acontecer naquele dia que, eu imaginava, seria “especial” na minha vida.

O pico principal se conecta por uma longa aresta a um pico menor, à direita e mais próximo do acampamento, com sua base se juntando a outro pico à esquerda do principal. Rumei direto nesse ponto, onde, pela vegetação mais alta, deveria haver uma drenagem. Para chegar ali tive que atravessar alguns quilômetros de uma extensa planície coberta de grama, mas encharcada em vários pontos. No começo até tentei ser cuidadoso, driblando as poças, mas depois que enfiei os dois pés na água, desencanei e passei a caminhar mais rápido, mesmo afundando a bota inteira na água num ponto ou outro.

Assim que cheguei perto da drenagem, percebi que a mata alta poderia ser uma armadilha, pois vários ursos poderiam “morar” ali. Para não surpreendê-los, fiquei com um dos sprays bem à mão, e comecei a “chamá-los” aos berros...hey bear!!.....(na dúvida preferi gritar em inglês para “garantir” que eles entendessem  rsrsrs).

Se um deles aparecesse eu teria que enfrentá-lo. A primeira coisa que o guarda parque me ensinou em Bettles, é que NUNCA se deve virar as costas para um urso e sair correndo, pois ele terá certeza que você está com medo, e não oferece perigo.

O certo é encarar o bicho com coragem (fácil, né), ser firme mas sem agressividade, gritar bem alto e tentar parecer maior, abrindo os braços e o anorak, de modo que ele desista de atacar alguém “maior” que ele.

- E se ele vier para cima de mim, perguntei?

- Bem, os ursos costumam blefar, mesmo assim convêm você ter uma arma!

- Só estou levando um spray de gás pimenta!

- Sério?!? Hummmm...então é bom você saber que essas latas de spray só dão para um único “tiro”! Talvez dois! Se você ficar calmo. E só são efetivos se você estiver a menos de 2 metros do urso....e com o vento a seu favor.......lembre-se também de mirar no pescoço dele, pois o gás pode subir e passar por cima da cabeça....sem fazer efeito......

- OK. Você me convenceu. Vou levar “dois” sprays..........

- Evite atirar contra o vento. O gás volta para você, seus olhos vão arder e o urso vai te atacar.....

- Mais algum conselho?

- Se tiver que brigar com ele, tente acertar socos no nariz e nos olhos.....

- Ah, legal, super fácil, obrigado, não vou esquecer.......

Aproveitei uma gostosa cascata para descansar, repôs os cantis e beber bastante.

Atravessei o riacho e me aventurei pela encosta do pico da direita, buscando sempre os pontos mesmo inclinados e de mata mais baixa.  Sem trilhas e com a mata chegando na altura do peito em vários pontos, tive bastante dificuldade para subir. Na primeira parada para descansar, suando em bicas, fui atacado por um exército de mosquitos, que eu tinha até esquecido que existiam. Tive que por a tela mosqueteira na cabeça para poder ter um pouco de paz.

Próximo ao topo, fiz um desvio em curva de nível para a esquerda, com a mata fechada e a enorme inclinação, dificultando meus movimentos. Quando finalmente desci para o col que conecta com o pico principal, estava exausto. Eu havia lido sobre a enorme dificuldade de se caminhar pela complexa vegetação da tundra mas...uma coisa é “ler”, outra é estar ali, ao vivo e em cores. A mata, mesmo com meio metro de altura, é intransponível, e o terreno, mesmo nas encostas, cheio de sulcos e buracos. Assim, os pés, espremidos nas botas molhadas, e pernas, estavam massacrados.

Forçado a parar algumas vezes para descansar, aos poucos fui me dando conta da beleza do lugar. Estava num imenso platô de grama, coalhado de flores que eu nunca tinha visto, e salpicado por bolinhas brancas parecidas com algodão, como as que existem perto da nascente do Noatak. Junto a pequenos paredões naturais de pedra, passarinhos iam e vinham, entoando um canto alegre, único ruído a quebrar o silêncio do lugar.

Parei para ouvir minha respiração e aguçar os sentidos. Olhando em volta eu conseguia enxergar a vários quilômetros de distancia para todos os lados. Para a esquerda podia avistar as inúmeras curvas do Noatak que eu havia navegado nos dias anteriores. Para a direita, as curvas que eu percorreria nos próximos dias. Para trás, depois do acampamento, que mal dava para ver, pude avistar o imenso lago Matcharak, e as montanhas a perder de vista atrás dele.

À minha frente, à direita do pico, o vale do rio Nushralutak, rodeado de montanhas mais agudas, e que penetrava fundo na cordilheira. À esquerda, o vale do Ipnelivik. No céu, nuvens carrancudas se deslocavam com rapidez, fustigadas pelo vento. E o incrível era que, para onde quer que eu olhasse, não via um único ser humano. Toda aquela paisagem estava ali somente para mim. Eu me sentia um privilegiado de estar ali.

Mar de montanhas

Aos poucos cheguei na base da imensa encosta, coberta de pequenas flores vermelhas, que me levaria para a longa aresta em S, que por sua vez me levaria ao topo. Novamente tive que buscar os pontos mais firmes e menos inclinados para conseguir subir. Cheguei bem cansado na aresta, por volta das 13h30.  A forte inclinação, e o meu precário preparo físico, tornaram a subida em “câmera lenta”, como se eu estive em grandes altitudes. Isto é, eu dava uns 15-20 passos e parava para respirar e descansar. Perto do cume não conseguia dar mais que 5 passos de cada vez.

Cheguei no topo às 14h20, quando, enfim, pude contemplar a real dimensão daquela cordilheira. Inesquecível. Depois de um merecido lanche, devorado no mais absoluto silêncio, comecei a descer pela aresta. A alegria pela subida e tristeza pela descida se misturavam.

Resolvi mudar um pouco o trajeto da volta, para evitar qualquer subida. Decidi explorar a parte superior do riacho que tinha atravessado pela manhã e, quem sabe, descer por ele. Foi uma péssima ideia. O riacho, descendo em degraus, seguia por dentro de uma vegetação fechada, que barrava o meu caminho a toda hora.  Isso exigia grandes malabarismos, a mochila enroscava a toda hora, e sempre que eu tentava avançar pelas margens a coisa só piorava. Apesar de exausto, fui obrigado a abandonar o riacho e subir pela encosta à minha esquerda, no meio de uma mata alta e fechada. A muito custo consegui avançar, tornar a descer e finalmente retornar à planície encharcada que me levaria ao acampamento, onde cheguei às 19h, sob um céu azul, com muitas nuvens.

Considerei minha subida aquele pico da Brooks Range como um troféu, que eu levaria para sempre na minha existência. Agora eu poderia descer o rio mais realizado.

Fui dormir cedo, pensando nas emoções que o Noatak me daria nos próximos dias.....quando começariam as corredeiras. Eu não via a hora de acordar.

EXPEDIÇÃO BROOKS RANGE/RIO NOATAK - ALASKA – Parte 3

 

Corredeiras

Acordei tarde, ainda de ressaca da subida na véspera....

Aproveitei que estava sol e fui lavar algumas roupas, que já estavam fedendo. Enquanto secavam, tomei meu café tranquilo. Só fui começar a remar às 12h15.

Logo avistei vários pássaros, inclusive pousados nas margens e nos bancos de cascalho. Principalmente gaivotas e patos selvagens, de diferentes espécies. Alguns não paravam de dar “rasantes” na água, às vezes perto da minha cabeça. Até um “irmão gêmeo” de um beija flor apareceu, intrometido.

Rodeado por um silêncio profundo, só quebrado pelos pássaros, remava quieto e atento à paisagem, filmando de vez em quando. A tarde, ensolarada e quente, passou rápido. Na margem direita do rio encontrei uma praia linda, a mais bonita da viagem, bem na divisa dos parque Nacional Gates of the Arctic e o Noatak. Decidi parar.  A praia tem um platô abrigado, com muita graminha verde, arbustos com flores e folhagem avermelhada. Ela fica numa curva suave, de frente para um morro. Restos de uma fogueira indicavam que pessoas estiveram ali.  O visual era tão inspirador que, depois de montar meu acampamento, fiquei um tempão na beira da água contemplando tanta quietude e beleza. Depois do jantar voltei para a beira do rio e fiquei até quase meia noite vendo o sol se pôr.

O dia seguinte começou animado. Sob um sol gostoso, apareceram as primeiras sequências de corredeiras, nível I e II. Fiquei impressionado com a estabilidade da canoa, que subia e descia cada onda sem se desequilibrar.

Enfrentei várias ondas de até meio metro, e um degrau de quase um metro. As corredeiras variavam de 50 a 200 metros de extensão, e muitas vezes me vi “driblando” pedras enormes que sobressaiam na superfície. Às vezes tinha que pensar rápido e decidir por onde avançar quando surgia uma barreira de pedras grandes, semi submersas, quase “invisíveis” da canoa, mas que poderiam fazê-la virar se me chocasse com uma delas.

Terminei o dia com os braços cansados e as mãos doloridas, mas feliz por ter acertado todas as manobras. No jantar, para comemorar, tomei a última dose do vinho californiano.

Os dias seguintes foram parecidos. Sol, temperatura por volta dos 20 graus, céu azul, nuvens que iam e vinham, e rajadas esporádicas de vento. Na água enfrentava corredeiras intercaladas por longos trechos de correnteza forte, ou trechos largos e rasos, que mais lembravam uma lagoa, onde a água praticamente “parava” e eu tinha que remar forte para avançar.

Numa das corredeiras, de tão confiante, entrei displicente numa descida, a canoa virou de lado e se chocou com uma pedra, criando uma “onda” enorme que invadiu o barco, e me encharcou da cintura para baixo, exigindo que eu usasse a bomba manual para tirar água de dentro da embarcação. Passei algumas horas dando bronca em mim mesmo pelo descuido. Só de pensar em virar a canoa na água gelada, perder equipamentos e eventualmente me acidentar naquele lugar, sem ninguém por perto, exigia que eu me concentrasse em cada onda, e não podia relaxar nessas horas.

Aos poucos a paisagem foi mudando. As montanhas da Brooks foram se afastando até sumirem e o horizonte foi se ampliando. O Noatak foi ficando com menos curvas, e as margens foram ficando mais monótonas,  mas os barrancos das margens foram ganhando altura. Alguns, de tão altos, eu avistava mais de uma hora antes de alcança-los.

Para compensar, os pássaros continuavam marcando presença. Por duas vezes, casais de gaivotas me “escoltaram” a poucos metros da minha cabeça, como que para garantir que eu estava só de passagem e não iria importunar seus filhotes. O mais interessante foi uma “escolinha” de patos junto à margem: a mamãe pato estava de frente para 4 filhotes perfilados lado a lado, aparentemente dando “instruções”.

Além dos pássaros, vi vários roedores, de diferentes tamanhos e espécies, sempre ligeiros. Até um animal que eu nunca tinha visto apareceu, com corpo e rabo de gato e cara de cachorro, com pelagem cor de tijolo.

A rotina continuava a mesma. Remava durante umas 05h00-06h00, com algumas paradas curtas para lanchar em alguma praiazinha e, por volta das 16h30 já estava com acampamento montado. A canoa, cada dia mais leve, ficava cada vez mais rápida.

Curtia o sol do resto da tarde quase sempre de shorts e camiseta. Nas tardes mais quentes aproveitava para tomar um bom banho de rio, dando um mergulho nas águas cristalinas (e geladas) do Noatak. Aproveitava também para recarregar as baterias das câmeras, escrever, ler, fotografar ou simplesmente não fazer nada, apenas curtir a paz e o silêncio daquele lugar. Nos dias mais inspirados, sacava meu bloco de pintura, meus pincéis e aquarelas e passava alguns momentos pintando, esquecendo da vida.

Eu já me sentia totalmente ambientado ao lugar. Sentia-me confortável com o isolamento do lugar, a ausência de pessoas, e mesmo as inúmeras pegadas de urso que avistava nas praias não me preocupavam mais. Não sentia solidão, mas solicitude, e uma gostosa paz interior.

Um urso!

Os últimos dias estavam parecidos, até que chegou o dia 12, Dia dos Pais!

Devido à diferença de fuso horário de 04h em relação ao Brasil, levantei às 06h00, bem mais cedo que de costume, pois queria falar com minha filha e meus pais. Eu não ouvia a voz de uma pessoa fazia 12 dias.

Avistei o nascer do sol mais bonito da viagem, surgindo entre 2 montanhas ao longe. A primeira surpresa foi ver que tudo que estava úmido amanheceu coberto de gelo. Acho que foi a única vez da viagem que a temperatura chegou abaixo de zero.

Procurei uma moita mais alta para melhorar o sinal e liguei o Iridium. Falar com minha filha, de apenas 9 anos, tão distante dali, me deixou muito emocionado e chorei até não poder mais. Depois repeti a dose ao falar com meu pai e minha mãe, ambos com mais de 80 anos e sem muita noção de onde eu estava, ou o que estava fazendo.

Com as mãos ainda doloridas dos dias de remada, comecei a descer o rio como nos dias anteriores. Estava entretido remando quando, sem um motivo aparente, decidi parar numa praiazinha para ver o que tinha no barranco acima. Pulei da canoa e subi serelepe o barranco de menos de 2 metros. Foi quando avistei na planície gramada, a menos de 100 metros de distancia, um bicho enorme, todo marrom, de costas para mim. No princípio, pensei que fosse um búfalo, igual ao que tinha visto dias antes. Mas, quando o animal virou de lado.... vi que era um urso! Dos grandes! E ele estava a menos de 20 segundos de mim!

Voltei correndo para a canoa. Peguei a Nikon, pus a teleobjetiva, prendi os 2 sprays de gás pimenta nas alças da mochila e, sorrateiramente, voltei a subir o barranco, torcendo para o bicho não ter vindo atrás de mim. No que pus a cabeça para cima da superfície, o urso olhou para mim. Nossos olhares de cruzaram. Tirei duas fotos ultra rápido, e estava preparado para voar de volta para a canoa e fugir se fosse necessário, quando, para minha surpresa, o urso começou a correr...na outra direção, fugindo de mim!! Eu quase nem acreditei no que estava vendo: um urso fugindo de mim! Bem, convenhamos que não é todo dia que isso acontece.

Fiquei filmado ele fugindo, quando comecei a chamá-lo (em inglês, para ele entender, claro): ”hey bear!! Ele correu sem olhar para trás até começar a subir a encosta. Ai deu uma parada, olhou para trás, me viu ainda ali com cara de mal, e voltou a correr encosta acima, até sumir do outro lado. Diria que foi o momento mais emocionante da viagem.

Mas novas emoções estavam reservadas para o dia seguinte.

Rena X lobo

Eram 07h00 da manhã quando ouvi um barulho “diferente” do lado de fora da barraca. Olhei para o outro lado da margem e vi uma jovem rena de pé dentro da água, com uma expressão de assustada. O sol do início da manhã, e o vapor que saia da água, tornavam a cena ainda mais surrealista.  Da metade para lá, o rio era bastante raso, pois havia um platô de pedras quase na superfície da água. A rena ficava apenas com as patas enfiadas na água.

Fosse o que fosse que a assustava, vinha da margem oposta onde eu estava, para onde ela olhava fixamente, quase sem se mexer. Depois de quase uma hora de agonia, que eu via bem em frente ao acampamento, ela tentou atravessar para o lado onde eu estava (margem direita), mas da metade para cá o rio era mais fundo e a correnteza bem mais forte. Ela tentou até ficar apenas com a cabeça para fora da água, quando percebeu que não conseguiria e voltou para onde estava. Isso a deixou aparentemente mais inquieta. Ela não poderia ir para a margem esquerda, pois a ameaça vinha de lá. E nem para a margem direita, pois a travessia era impossível. O que fazer quando a fome apertasse?

Foi quando, de repente, surgiu um lobo na margem esquerda, bem em frente à rena.

Era um lobo marrom claro, com um rabo extremamente comprido e peludo.

Aproveitando a pouca profundidade daquele lado, o lobo partiu para cima da rena, que só teve uma alternativa: começou a descer o rio por cima das pedras, caminhando paralela à margem. Foi quando o lobo foi apanhado pela correnteza, e também só teve uma opção: tentar nadar o mais forte que pudesse para finalizar a travessia, sem ser arrastado pela água. 

Maravilhado por presenciar aquela cena que só acontece na natureza selvagem, típica de documentários de vida animal, acompanhei o drama do lobo, até ele conseguir chegar na praia bem em frente a mim. Da minha parte eu não sabia se olhava, se filmava ou fotografava, ou fazia tudo isso ao mesmo tempo.

Ele saiu da água assustado e ofegante. Depois de chacoalhar a água do corpo, ficou estático olhando fixamente para a rena, que voltou a subir o rio até o ponto em frente a mim, e que continuava com a expressão bem assustada, agora olhando para o lado de cá. A troca de olhares entre a presa e o predador foi uma das cenas mais extraordinárias dos meus mais de 30 anos de aventura.  Quando o lobo, enfim, desistiu da rena, ele finalmente me viu. E fez aquela cara de surpresa, tipo: que bicho é esse? Eu estava a menos de 2 metros dele, sem saber exatamente o que fazer se ele me atacasse. Oferecer um lanchinho? Um cafuné? Atirar a câmera na cabeça dele?

Ele não demonstrou medo, nem agressividade. Deu uma farejada rápida na barraca, nos barris de comida e rapidamente caminhou por dentro da mata paralelo à praia, até sumir de vista. Foi quando me lembrei que lobos não andam sozinhos. Logo deveriam aparecer muitos outros, pensei, ainda mais com uma rena paralisada de medo ali “dando sopa”.

Não demorou uns 30 minutos, quando o lobo reapareceu, vindo pelo mesmo caminho de onde tinha ido embora. Deu outra farejada na barraca e nos barris, olhou para mim com uma expressão de indiferença, e se postou novamente na areia da praia, olhando fixamente para a rena, que continuava ali, havia mais de duas horas. 

Mas o que fazer? O rio era fundo naquele ponto e a correnteza poderia levá-lo rio abaixo. Como “almoçar” aquela jovem rena? Depois de um tempão, desanimado, ele novamente se embrenhou na mata e caminhou sentido rio abaixo, paralelo à praia.

Embora tocado pela situação da rena, eu não tinha o que fazer para ajudá-la, por isso fui tratar da vida. Decidi tirar aquele dia ensolarado para descanso. Lavei mais alguma roupa, costurei minhas luvas, tomei café e tratei de relaxar. As horas passavam e a rena continuava em cima das pedras, andando para cima e para baixo, sempre devagar, receosa. Provavelmente morrendo de fome.  Não vi quando ela foi embora, mas já passava das 13h00.

À tarde, estava sentado na areia, distraído fazendo um chá, quando fui transferir a água fervente da panela para a garrafa térmica. O cabo da panela escapou e acabei entornando a água fervente na batata da minha perna direita. Por sorte eu estava com calça de ginástica, o que amenizou o estrago, mas a dor foi intensa e logo surgiu uma mega bolha no lugar. Passei uma pomada anti inflamatória, cobri a ferida com gaze (que só tinha 3 jogos) e tomei um remédio para dor. Depois fiquei torcendo para não infeccionar.

No final da tarde começou a ventar forte, e a garoar. Na madrugada a chuva apertou.

Tempestade

Depois de receber uma noticia de casa, que não vem ao caso comentar aqui, decidi encurtar a viagem em uma semana. Assim, decidi que iria somente até o Lago Cutler, grosso modo metade do rio, e último ponto onde a empresa aérea de Bettles poderia me pegar. A partir dali teria que contar com alguma empresa de Kotzebue, uma vila na costa do Alaska, portanto na outra ponta do rio, e pagar bem mais caro, ou remar até a vila Noatak (6-8 dias), onde tem um pequeno aeroporto e voos comerciais.

Pelos meus cálculos, eu estava a 2 dias do Cutler.

O dia seguinte amanheceu chovendo forte, mas na hora do café ela deu uma trégua. Carreguei a canoa e comecei a remar. O dia estava bastante nublado e o vento contra era incessante, o que dificultava as manobras, sabotava o meu esforço e diminuía a sensação térmica, tornando tudo muito mais desgastante. 

À tarde o tempo piorou.  O vento contra aumentou e começou a garoar. Parei na primeira praia que encontrei, bastante distante da água. Mas foi a conta. Assim que entrei na barraca uma chuva forte desabou, junto com a temperatura.

Num curto intervalo da chuva, fiz meu jantar e pus os barris para proteger a barraca do vento. O frio estava tão intenso que nem consegui ficar na beira do rio escovando os dentes.

O dia seguinte amanheceu carrancudo e ainda com vento forte, principalmente na calha do rio. Decidi dar um tempo. Por volta do meio dia a ventania ficou bem mais intensa, impedindo qualquer tentativa de remada. Logo voltou a chover forte. Desisti de fazer o jantar. Fiz um lanche seco, dei duas mega colheradas na Nucita, e fui para a cama.

À noite, preocupado com a ventania, mal dormi. E, novamente, ouvi um barulho “diferente” do lado de fora.

Foi quando olhei para onde tinha largado a canoa. E fiquei horrorizado com o que vi! O nível da água tinha subido e levantado a canoa, que estava boiando livre, leve e solta. Vazia, ela não pesava “nada” e só não desapareceu rio abaixo porque o forte vento não a deixou entrar na correnteza. Voei até ela e a trouxe para a areia, a meio caminho entre a água e a barraca.

Tiritando de frio, voltei a dormir quando senti que algo não ia bem. Para minha enorme surpresa, a água tinha subido mais ainda e já estava quase na canoa novamente. E agora a água estava barrenta.

O vento continuava forte, forçando a estrutura da barraca ao limite. Como o nível da água não parava de subir e já estava se aproximando barraca, arranquei os espeques e a puxei com tudo dentro, para uma pequena clareira pouco acima, na zona de transição entre a areia da praia e a vegetação fechada. Tudo indicava que ali a água não chegaria. Mas, e se chegasse? O que eu faria?

Com a água barrenta, ficou mais difícil beber e cozinhar. Depois de várias tentativas, consegui falar com a empresa aérea, para articular meu resgate no Cutler. A pessoa que me atendeu informou que, devido à tempestade, eles não tinham previsão de quando conseguiriam decolar. Perguntei se havia algum lugar seguro para acampar na beira do lago, mas a pessoa não soube informar. Em todo caso, decidi aguardar ali mesmo onde estava. E assim, com essas e outras, fiquei 4 dias parado nessa praia batida pelo vento, torcendo para a barraca resistir, e o vento amainar.

Um torpedo enviado pela minha filha novamente me deixou emocionado – e apertou a saudade.

Final

Com o OK da empresa aérea, assim que o tempo melhorou um pouco, carreguei a canoa e me pus a descer o rio. O vento contra continuava insistente e gelado, mas havia a compensação da correnteza mais forte, que ajudava na descida. A água continuava cor de chocolate, portanto, escondia qualquer pedra grande submersa.

Em menos de uma hora de remada alcancei o rio Cutler, que desagua no Noatak na sua margem esquerda. Depois de uma milha cheguei no ponto mais próximo do lago, que fica na margem direita. Pelo GPS seriam uns 1200 metros de caminhada até sua beirada.

Foram 2 dias exaustivos e desgastantes de ralação até levar tudo para a beira do Cutler. Devido às más condições de Bettles, tive que chamar um avião de Kotzebue.

Enquanto aguardava revi o filme da viagem na minha cabeça. As dificuldades dos primeiros dias, os mosquitos, a caminhada rumo à nascente, os vários dias de remadas, a subida da montanha, os inúmeros animais que vi, os caribous, o lobo que veio visitar meu acampamento, o urso que fugiu de mim...

O sol, os dias com 24h de luz, as chuvas, os ventos, as paisagens, as montanhas, as corredeiras, os banhos de rio, a quietude.....os medos, as descobertas, os momentos de coragem, aqueles de contemplação, de introspecção e de paz interior.

Parafraseando meu amigo Gil Duque, ao encontrar-me naquele ambiente natural tão incomum, simultaneamente belo e inóspito; ao encontrar-me livre dos artificialismos e confortos da civilização, livre das “muletas” culturais que tanto nos protegem e nos restringem, percebi que fui impelido a reencontrar minha identidade no que ela tem de mais simples e primário nas atitudes, e mais profundo nas reflexões.

Ali na Brooks Range, tive que caminhar com meus próprios pés, me direcionar, manter o equilíbrio somático e psicológico, avaliar as intenções do clima, optar por prosseguir ou não diante do cansaço e do medo, abrigar-me, expor-me, tomar decisões, confiar em mim mesmo e me superar.

Esse processo me reconectou à minha essência como ser e criatura, e me sensibilizou, desencadeando em mim uma profunda reflexão sobre minha vida, minha forma de atuação e meus reais limites. Uma vivência transformadora que não tem preço.

Às 16h40 do meu 20º. dia de expedição um pequeno hidroavião cinza pousou nas águas escuras e tranquilas do lago Cutler. Quando ele decolou rumo à Kotzebue, levava a bordo um homem de 52 anos, profundamente feliz e agradecido à vida, e que chorava como um menino.

 

Thomaz Brandolin – out 2013

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