Ilha Rei Jorge
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No final de 1992 retornei à Antartica. Dessa vez o destino era a Ilha Rei Jorge, onde está a estação brasileira Comandante Ferraz. Acompanhado do alpinista Alexandre Cymbalista, também do CAP, passei parte do verão ali, auxiliando os trabalhos do glaciólogo brasileiro Jefferson Simões e sua equipe, na coleta de amostras de gelo. Começamos nosso trabalho pelas geleiras em volta da estação. Terminada essa tarefa, o próximo desafio do grupo era então alcançar o ponto mais elevado da calota de gelo da ilha - 620 metros de altitude e distante uns 5 km da estação, em linha reta - levando num trenó uma sonda de 8 metros (desmontada) para coletar amostras de gelo.

Com esquis nos pés e unidos por uma corda, Alex, Jefferson e eu tentamos diferentes entradas na geleira mas éramos sempre barrados por uma impressionante quantidade de fendas na superfície. Até que um dia, explorando pelo outro lado da Península onde está a estação, conseguimos encontrar uma porta de entrada aparentemente segura. Apesar da neblina e pelo fato de estarmos caminhando em meio a um labirinto de fendas, marcamos nossa descoberta com uma série de bambus enterrados na neve.

Montamos nosso campo-base no pequeno Refugio 2, mantido pelos brasileiros para casos de emergência, do outro lado da península onde se encontra a estação. Antes da subida definitiva fizemos uma longa viagem até a borda da geleira para deixar parte dos equipamentos. A maioria dos bambus enterramos na neve dias antes haviam desaparecido, mesmo assim encontramos nossa "entrada" na geleira.

Finalmente, na tarde do dia 8 de janeiro partimos rumo ao ponto mais alto da ilha. Chegando na borda da geleira, a neblina mais uma vez nos envolveu. Ficamos indecisos. Uma opção era escalar aquela extensa geleira, "tateando" em busca do caminhando, tendo que manobrar um pesado trenó num labirinto de fendas, com grandes chances de um acidente ou, no mínimo, um insucesso. A outra opção era simplesmente desistir. Naqueles primeiros dias de 1993 as condições climáticas há muito não ajudavam. E o dia de chegada do navio que viria nos buscar estava cada vez mais próximo. Era uma corrida contra o tempo. A única coisa que nos favorecia era que os dias ainda tinham 24 horas de luz.

Depois de pesar os prós e o contras decidimos subir. A neblina adensava a cada metro que subíamos, mas o frio era moderado e não ventava forte. O trenó, por sua vez, não "fazia" curva nem "pulava" as gretas, complicando bastante nosso trabalho. Eu ia na frente, puxando o dito cujo, enquanto o Alex seguia atrás, segurando uma corda-guia amarrada na traseira do trenó. Várias vezes tive que fazer meia-volta, o que nem sempre é fácil quando se está com esquis nos pés na beira de uma fenda onde cabe um caminhão.

No trenó, além da pesada e volumosa sonda, havia também alguns mantimentos e equipamentos para eventuais emergências. Nosso plano era passar apenas uma noite lá em cima, cavando e coletando amostras. Mas se o tempo piorasse tínhamos que ter autonomia para suportar alguns dias. Não daria para contar com nenhum suporte da base pois, as pessoas treinadas e encarregadas para eventuais resgates nas geleiras eram justamente Alexandre e eu.

A neblina era tão espessa que tivemos que caminhar com o auxílio da bússola, marcando um X na neve a cada 50 metros. Levamos 6 horas para percorrer apenas 4,5 km, 3 horas para os últimos 2.000 metros. Sob 5 graus abaixo de zero, passamos a noite toda no tôpo da imensa geleira. Envoltos naquela penumbra leitosa, cavamos o mais rápido possível uma trincheira com 2 metros de profundidade. Terminado o serviço, primeiro o professor Jefferson coletou amostras das paredes internas do buraco. Depois nos revezamos no árduo trabalho de rosquear a sonda manual no fundo do mesmo, por mais 8 metros. De acordo com o Jefferson as amostras coletadas pela sonda o permitiam estudar o clima naquele continente nos últimos 50 anos. Na manhã do dia 9 estávamos são e salvos de volta ao Refugio 2, exauridos mas com o trabalho concluído. Dia 13 chegou o navio.

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