Everest
Fotos
Vídeos

Em meados de 1989, ainda sob o impacto da experiência no Makalu, consegui junto à Associação Chinesa de Montanhismo uma autorização, para escalar o Monte Everest (8.848 m). O documento me autorizava escalar a montanha dali 2 anos, 1991, pela Face Norte.

Comecei então a organizar o que seria o Projeto Brasil-Everest. A idéia era estruturar a primeira expedição brasileira àquela montanha, brasileira no sentido do planejamento, a busca de soluções e a execução serem realizados por brasileiros. Embora mais fácil e barato, eu não queria subir a montanha através de uma agência de turismo de aventura que organiza escaladas àquela montanha. Ingenuidade? Idealismo?

A autorização era para os meses de outubro-novembro. É uma época sabidamente ruim no Himalaia, mas era a única maneira de se "furar" a fila que havia para se conseguir uma autorização. Naquele época o custo do documento era irrisório fazendo com que a fila de espera fosse de quase 10 anos.

Hoje pode-se argumentar que o ideal seria formar uma equipe e com ela escalar picos de 8.000 metros menores, para se adquirir mais experiência. Mas naquela época o alpinismo ainda era incipiente por aqui. O país vivia a conturbada "era Collor" e era praticamente impossível conseguir, via patrocínio, as dezenas de milhares de dólares necessários para uma empreitada desse tipo. Pelo contrário, esse ambicioso projeto, junto com a iniciativa de outros escaladores, contribuiu para colocar a aventura, de uma maneira geral, e o alpinismo, em particular, na pauta da grande imprensa.

Em fevereiro de 1991, já como preparação para o Everest, voltei para o Aconcagua. Dessa vez estava acompanhado de Ramis Tetu e do médico Eduardo Vinhaes. Durante a subida enfrentamos vários dias de tempo ruim, com neblina, neve e vento forte. Quando o tempo finalmente melhorou, eu e Ramis subimos para o cume com o objetivo de passar uma noite lá em cima, a 6.959 metros de altitude.

Saindo do acampamento Berlim e com mochilas pesadas às costas, chegamos no tôpo às 9h00 da noite. Foi uma noite inesquecível pela sua beleza. O sol se pondo iluminava as montanhas nevadas em volta com um vermelho alaranjado, que se transformou em escarlate. Aos poucos a lua foi surgindo, o céu foi se enchendo de estrelas e as montanhas foram ficando prateadas. Apesar dos 23 graus abaixo de zero, nosso acampamento, sem dúvida, era cotado como "um milhão de estrelas".

A equipe de Projeto Brasil-Everest era composta também pelos alpinistas Alfredo Bonini, o casal Paulo e Helena Coelho (que nos últimos anos retornaram 3 vezes à montanha), Roberto Linsker, Kenvy Chung, Ramis Tetu e o médico Eduardo Vinhaes.

Conseguimos patrocínio da BR Distribuidora, Banco do Brasil, Dow Química e Liotécnica somente em julho daquele ano. Dois meses depois os integrantes da equipe se encontraram em Katmandu.

Faria parte da equipe ainda, 6 sherpas - Ang Rita, recordista absoluto de subidas ao Everest (tinha 6 ascensões até então - hoje já têm umas 12 ou 13 - sempre sem garrafas de oxigênio); Ang Nima, na sua 16a. tentativa de subir a montanha, Phurba e Danu, mais o Dawa e o Tenji como cozinheiros; e dois chineses, Ma Simin, como Liason-Officer e Zheng Xiau Huai, como intérprete.

Em Katmandu enfrentamos inúmeros problemas burocráticos: as autoridades nepalesas não permitiram que abríssemos nossos 50 barris com mantimentos. Uma vez que os sherpas insistiam em levar a comida deles, tínhamos que eliminar centenas de quilos da carga e rearrumar o restante. Isso fez com que perdêssemos um tempo precioso na cidade e, mais tarde, no campo-base.

Atravessamos o platô tibetano - de ônibus e caminhão - sem maiores incidentes e montamos nosso CB no dia 3 de outubro, a 5.200 metros de altitude, no final do Vale de Rongbuk, sob a face norte do Everest.

Como previsto, perdemos vários dias no CB rearrumando a carga a ser transportada para os acampamentos mais elevados. Assim, nossa equipe só começou a subir o Everest no dia 12 daquele mês, pela geleira Rongbuk Leste. Ali instalou o C- 1 (5.600 m), no dia seguinte o C- 2 (6.000 m), e no dia 14 o C- 3 (6.500 m), considerado nosso campo-base avançado. Dali nosso próximo objetivo era subir o paredão de gelo com 450 metros de altura até o Colo Norte (7.050 m), um dos trechos mais difíceis e perigosos de toda a escalada. Com a proximidade do inverno himalaiano os dias eram extremamente frios e ventava muito. Assim, nosso trabalho de fixar cordas pela parede, montar e abastecer o C-4 no colo levou 12 dias.

O C-4 foi finalmente instalado no dia 28 de outubro, com a ajuda do Paulo, Ramis e Phurba, Alfredo e eu mais os sherpas Ang Rita e Ang Nima. Apesar do cansaço, do frio e do vento, estávamos otimistas. Aclimatados, dali ao cume seriam 3 dias de subida.

Os últimos 4 permaneram no C-4 três dias e três noites esperando o tempo melhorar. Estávamos prontos para tentar chegar ao que seria o campo 5 (7.600 m). No dia 30 Ang Rita e eu fizemos uma tentativa. Devido à poderosa força do vento que ameaçava nos jogar pelo abismo, quase não conseguíamos colocar um pé na frente do outro. Com muito esforço praticamente nos arrastamos cêrca de 200 metros para frente e 50 metros de desnível. Exaustos e congelados, retornarmos ao acampamento vencidos pela fúria do vento.

Esgotada por 17 dias acima dos 6.500 metros de altitude, nossa equipe decidiu regressar ao CB para descansar. Kenvy e Roberto Linsker desistiram da expedição e retornaram a Katmandu. No dia 10 de novembro o restante do grupo, menos o médico, retornou ao campo 3. Ali permanecemos mais 13 dias. Apesar dos esforços não conseguimos chegar mais alto que 7.100 metros de altitude e demos a expedição por encerrada. Desmontamos o campo-base no dia 26 pela manhã. Dois dias depois estávamos de volta a Katmandu. Em dezembro retornamos ao Brasil.

Um ano e meio depois publiquei meu primeiro livro, "Everest: viagem à montanha abençoada", lançado pela L&PM Editores, onde narro com detalhes essa fantástica expedição.

Comentar

COMENTÁRIOS