Ilha Seymour
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Antártica - 1989/90

Em dezembro de 1989, como integrante do Clube Alpino Paulista, embarquei para minha primeira expedição à Antartica. Fui como alpinista de apoio de uma equipe da Petrobrás. Ela era formada pelos geólogos Silvio Barrocas e Geraldo Gusso (falecido amigo Peninha) e o técnico João Bosco. O objetivo dos geólogos era estudar o solo da remota Ilha Seymour (Marambio, para os argentinos). A ilha fica na extremidade do Mar de Weddell, no lado oposto à Península Antártica, onde fica a Estação Comandante Ferraz.

A Seymour foi escolhida por ter uma pecularidade que a distingue das demais naquele continente. Ela é totalmente deprovida de geleiras permanentes, deixando à mostra todo seu relevo "lunar". O lugar é um verdadeiro museu geológico a céu aberto que deliciava meus companheiros. Devido às constantes tempestades que encobrem o solo de neve naquela região, o plano era passar 2 meses na ilha, para garantir pelos menos algumas semanas de tempo bom.

Montamos 3 acampamentos na ilha. O maior deles, nosso campo-base (CB), foi instalado a 190 metros de altitude, no alto do platô que domina a metade norte da ilha. Estávamos próximos onde os argentinos mantêm uma base da Força Aérea. O lugar era tão exposto aos violentos ventos vindos do Pólo Sul que tivemos que prender nossas barracas com mais de uma tonelada de pedras cada uma.

Desse campo partimos a pé para montar mais 2 acampamentos. Um bem no meio da ilha (Campo-1), batizado de "casa de campo", e outro mais afastado, quase junto à costa (Campo-2), nossa "casa de praia".

A ilha têm o formato de um violão e a parte mais estreita é cortada por um rio de água barrenta cujo leito mais parecia lama "movediça", exigindo rapidez e destreza para atravessá-lo, sob o risco de ficarmos presos e afundarmos na lama até os joelhos, nos obrigandos a sair engatinhando chafurdando no barro.

Circulamos a pé por três quartos daquela ilha desolada, habitada por milhares de pinguins em um trecho da costa. Embora o terreno seja argiloso e escorregadio em vários pontos, o relevo "convida" a ser explorado. Ele é ondulado, numa sucessão de arestas e pequenos vales e canyons, cortados por belas drenagens. Aqui e ali, muitas vezes "escondidos", pequenos lagos de água límpida, que refletiam as encostas ao redor, emprestando ao lugar um clima de serenidade e paz. E o interessante naquele ilha-deserto era que bastava subir ao tôpo de uma aresta mais elevada para vislumbrar dezenas de quilometros no arredores. Era comum sairmos para uma caminhada de várias horas e, desde o início, podermos enxergar o ponto onde queríamos chegar. Isso sem falar que podíamos avistar o mar nos dois lados da costa, as ilhas ao redor e uma tempestade de neve vindo lá longe. Outro aspecto que impressionava era o contraste da aridez do solo e sua infinita gama de tons de marrom, com o mar azul ao fundo, muitas vezes repleto de icebergs de um branco imaculado.

Com a ausência de gelo que pudéssemos derreter, nossa grande dificuldade naquela ilha era conseguir água em abundância e de boa qualidade. Às vezes tínhamos que cavar pequenos poços para coletar água no subsolo. O clima, por sua vez, mudava bruscamente. Sol e "calor" de zero grau se transformavam em tempestades de vento e neve em questão de minutos. Isso não evitou que enfrentássemos um período de 18 dias ininterruptos de mau tempo. A temperatura variou sempre entre 7 graus C negativos e 9 positivos, mas a força do vento fazia com que a sensação térmica fosse muito inferior.

E não poderia terminar este texto sem enfatizar o carinho e amizade com que fomos recebidos pelos argentinos da Base Marambio. Suas visitas eram quase que diárias em nosso acampamento e sempre acompanhadas de pequenos "mimos" como garrafas de vinho, queijos, gigantescas peças de carne, muitas piadas e alegria. Uma vez por semana éramos nós que íamos à base, tomar um banho e falar com o Brasil via rádio. Assim, foi com tristeza que deixamos o continente antártico, no dia 23 de fevereiro, dia do meu aniversário, quando os dias já estavam ficando mais curtos e as noites mais estreladas.

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