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Himalaia - 1987/88

Depois de 3 anos vivendo na Califórnia, em meados de 1987 retornei ao Brasil. Além da saudade, tinha conseguido uma vaga numa expedição polonesa ao Himalaia e precisava de patrocínio. Consegui um apoio da Quaker e em novembro embarquei para Katmandu. A equipe era formada por 5 polonoses, 2 norte-americanos e eu. Nosso objetivo era fazer a primeira ascensão durante o inverno do Monte Makalu (8.470 m), a quinta montanha mais alta do mundo.

A equipe ficou quase um mês em Katmandu aguardando os equipamentos e mantimentos que vinham da Polônia... por terra, de caminhão!!

Da capital do Nepal fomos para o leste, até a vila Hile, um trajeto de 600 km que levamos 24 horas de ônibus para percorrer. De Hile, ponto onde termina a estrada, até a base da montanha, são 150 km de trilhas, que fizemos a pé, em 12 dias. No princípio seguimos pelo vale do rio Arun, até a vila Navgaon. Ali viramos à esquerda, ultrapassamos 3 passos nevados acima dos 4 mil metros e adentramos no remoto vale do Rio Barun, próximo à fronteira com o Tibet. Nossos equipamentos e mantimentos para 2 meses eram transportados nas costas de 108 carregadores.

O impressionante foi ver que cada carregador levava sua carga de 35 quilos acondicionada num cesto em forma de funil, preso junto às costas por uma cinta apoiada na cabeça. Muitos andavam descalços, inclusive nos trechos cobertos de neve. Dormiam com apenas um grosso cobertor, apesar da temperatura à noite chegar bem abaixo de zero. Na maioria das vilas, exceto pelos relógios de pulso e alguns radinhos à pilha, parecia que o tempo havia parado há séculos.

Instalamos nosso campo-base no dia 8 de dezembro a 4900 metros de altitude, na morena da geleira Barun. Mas não fomos bem recebidos. Mal acabamos de instalar nossas barracas e uma sequência de rajadas de vento quase destruiu todas elas. Fomos forçados a reinstalar o acampamento num lugar mais abrigado. Dali avançamos 5 km pela morena e instalamos nosso base-avançado, a 5.100 metros de altitude. Por ser inverno os dias eram curtos e as noites geladas, chegado fácil nos 25 graus abaixo de zero.

Levamos 2 dias subindo pelas franjas do Makalu para montar o campo 1, a 5.900 metros. Duas semanas depois, já aclimatados a altitude, fazíamos esse trajeto (base avançado - C1) em 3h30...ida-e-volta. Nossa estratégia era contornar o flanco oeste da montanha. Dali iríamos subir até o Makalu La, passo que separa o Makalu do pico adjacente Kangchungtse (7. 640 m), e seguir pela aresta noroeste.

Durante esse mês até que avançamos rápido. Montamos o campo 2, a 6.300 metros, já na geleira Chago, e o 3, a 6.800 metros, na encosta da montanha. O C-3 estava pouco abaixo do Makalu La e bem de frente para a Face Leste do Everest. As barracas montadas no C-2 não resistiram ao vento, nos obrigando a cavar uma cova no gelo. O C-3 também era uma cova escavada na neve dura. O lugar era tão exposto que não pensamos 2 vezes em também cavar uma enorme cova.

Com os campos montados e razoavelmente abastecidos, descemos para o Campo-Base no dia 23. Celebramos o Natal com uma pequena reza, puxada pelo chefe da equipe - Andrjez Macknik e tudo mais a que tínhamos direito: árvore de natal com enfeites (um sherpa caminhou 2 dias para buscar um pequeno pinheiro na linha das árvores), bolos, doces e bebidas à vontade. Isso apesar dos 28 graus negativos que fazia fora das barracas.

Quando entrou janeiro nossa sorte mudou. Além de temperaturas que beiravam os 35 graus abaixo de zero à noite, as tempestades de vento eram uma constante. Em 25 dias de esforços não conseguimos instalar mais nenhum acampamento. Chegamos a passar 3 noites na cova de gelo a 6.800 m, esperando por uma melhora do tempo para "atacarmos" o cume, mas essa melhora nunca veio. O máximo que um dos nossos conseguiu chegar foi 7.500 metros de altitude. Cheguei 300 metros abaixo disso. Vencidos pelos ventos do inverno, pelo cansaço e pela escassez de mantimentos, no final de janeiro demos a expedição por encerrada.

Essa primeira expedição no Himalaia foi marcante na minha vida. Não só como alpinista e aventureiro, mas como pessoa. Ali pude sentir a força, a magia e o encanto daquelas montanhas, que levam uns à oração, outros à contemplação e outros à reflexão sobre o mundo em que vivemos.

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