McKinley
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Em 1986, enquanto ainda morava na California, fui para o Alaska. Meu objetivo era escalar o remoto Monte McKinley (6192 m), ou Denali, como preferem os locais. Denali é o nome escolhido pelos índios da região para denominar essa que é montanha mais alta da América do Norte. Dessa vez estava acompanhado do meu amigo Beto Borges.

Conhecido pelo seu clima polar, o Monte McKinley - bem como a maioria das montanhas da região - se diferencia das montanhas himalaianas ou andinas pela dificuldade de acesso. Devido à sua proximidade com o Círculo Ártico (está 360 km ao sul), suas geleiras chegam a dezenas de quilometros de extensão. Portanto não existe uma trilha para se chegar à sua base. Ao invés disso, um pequeno avião deixa os alpinistas no meio do gelo a cêrca de 2.200 metros de altitude. É dali, já em cima da geleira, que começam a caminhada de aproximação. Como não existem carregadores "sherpas" ou mulas, e para evitar um perigoso sobe-e-desce pela geleira, os alpinistas, além da mochila, puxam seus mantimentos e equipamentos num trenó. Ele é arrastado até o campo-base, a 4.350 metros de altitude, onde de fato começa a escalada. O que ajuda é que na temporada de escalada (meados da primavera até meados do verão) os dias têm 24 horas de luz.

No comecinho de junho eu e o Beto pegamos um pequeno trem em Anchorage para uma viagem de 4 horas até o vilarejo de Talkeetna. É dali que saem os aviões que levam os alpinistas para as montanhas. Na primeira tentativa de chegar na geleira, o minúsculo avião que fretamos chegou a 2 km da "pista de pouso" marcada no gelo mas teve que regressar devido aos fortes ventos. A ventania era tão poderosa que jogava a aeronave de um lado para o outro como se fosse uma pipa de papel. Tivemos que retornar 2 dias depois para finalmente conseguirmos pousar.

Subir por uma geleira, ainda mais no Alaska, é caminhar num mundo à parte. Totalmente surpreendente. A começar pelas gigantescas montanhas que nos cercavam. E de todas desciam geleiras espetaculares, numa escala de tamanho difícil de imaginar. Havia também as monstruosas fendas na superfície por onde andávamos. Mas o espantoso mesmo foi enfrentar a temperatura de 25 graus.... POSITIVOS.
Para aumentar a sensação de calor, a neve refletia os raios solares, dando a nítida impressão que estávamos sendo cozidos aos poucos. Mas estávamos no Alaska e foi só ganhar um pouco de altitude para a situação se inverter. Ainda na geleira, uma tempestade tão intensa se abateu que a cada 3 horas tínhamos que sair para tirar a neve de cima da barraca antes que a mesma fosse esmagada.

Levamos uma semana para chegar à base do McKinley. Ali montamos um confortável acampamento, rodeado com blocos de gelo para nos proteger do vento. Dois dias depois subimos uma empinada rampa de neve, de 450 metros de altura, que leva ao topo da West Ridge. Nesse local fizemos nosso primeiro depósito de mantimentos e retornamos. Dali 2 dias subimos a rampa novamente. Avistamos nosso depósito, viramos à direita e seguimos 1500 metros pela afiada aresta até o local do próximo acampamento. O último antes do cume. Naquela noite a temperatura desceu a 35 graus negativos.

Foi nessa aresta, onde em alguns lugares mal havia espaço para colocar um pé, e com abismos de ambos os lados, que entendi o que os americanos querem dizer quando afirmam que escalar o McKinley nem é tão dífícil mas pode ser fatal se voce tropeçar no cadarço da bota!!! E para levar nossos mantimentos tivemos que percorrer essa aresta duas vezes, em ambos os sentidos, uma delas sob forte tempestade e visibilidade "zero" . Foi aterrador.

O dia do ataque ao cume amanheceu ensolarado e com uma temperatura de 25º graus abaixo de zero. Partimos ao meio-dia e logo começou a ventar forte. Próximo ao col entre os cumes norte e sul o vento já quase que impedia a nossa progressão. De repente vimos 2 alpinistas descendo. Passaram por nós tão rápido que só deu tempo de ouvir que mais para cima estava impossível de subir por causa da ventania. Olhamos para baixo e vimos dois dos três alpinistas que nos seguiam virarem as costas e retornarem para o acampamento. Não era um cena muito animadora. Eu o Beto olhamos um para o outro. Não dava para conversar de tão forte e ruidoso que estava o vento. Nem precisava: viemos de tão longe que não iríamos desistir enquanto tivéssemos forças para subir. Lentamente, passo-a-passo fomos subindo. O ar, extremamente frio e rarefeito, nos deixava ofegantes. A cada poucos passos nos apoiávamos nas piquetas para recuperar o fôlego. Para descansar de verdade tínhamos que nos esconder atrás de alguma pedra que nos protegesse do vento. Mas pelo menos o dia continuava ensolarado.

Observando o alpinista solitário que vinha meia hora atrás de nós era fácil perceber a força de vontade que alguém precisava ter para subir aquela montanha. Numa das paradas para descanso esperamos ele nos alcançar para trocar umas palavras de incentivo. Ele aproveitou para pedir para se juntar à nossa corda na aresta final, sabidamente a mais exposta, afiada e perigosa.

As horas foram passando e nós, teimosamente, fomos ganhando altitude. As enormes montanhas que nos rodeavam quando começamos a escalada, duas semanas antes, agora estavam pequenas e muito abaixo de nossos pés. Nem mesmo as nuvens tiveram força para subir tão alto e permaneciam lá embaixo. Parecia que estávamos a caminho do céu. Assim, quando avistei a aresta final e o cume logo acima, na minha frente, foi impossível segurar as lágrimas. Para nossa sorte o vento diminuiu nos momentos finais. Esperamos pelo alpinista solitário, nos unimos os 3 na mesma corda e, cuidadosamente, vencemos o trecho final.

Pisamos no topo da montanha às 19h30 do dia 19 de junho de 1986 e ali permanecemos por 30 minutos. Maravilhados. Lá de cima pudemos vislumbrar uma infinidade de montanhas, vales e lagos até onde a vista alcançava. Mas tudo que é bom dura pouco. Apenas dois dias depois embarcávamos de volta da realidade daquele ambiente para a artificialidade da civilização.

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